A Grécia, a democracia e a zona euro

A Grécia antiga inventou a democracia. Mas a Grécia moderna corre o risco de sujar o nome dela. Os desentendimentos entre políticos rivais em Atenas ameaçam provocar uma escalada na crise da dívida europeia, com consequências graves para a Grécia, a União Europeia e a economia mundial como um todo.

Para evitar isso, é crucial que os políticos gregos enterrem suas divergências – nem que seja apenas por alguns meses –, para que possam formar um governo de união nacional que apóie o pacote de resgate mais recente da União Europeia. É preciso recordar que, ao mesmo tempo em que o pacto acordado duas semanas atrás vai implicar em mais austeridade na Grécia, ele também implica em créditos maciços para o país e um perdão de 50% da dívida grega em mãos de credores particulares – logo, em um alívio parcial, extremamente necessário, do peso esmagador da dívida.

Se o Parlamento grego não conseguir aprovar este acordo, mesmo assim, os bilhões prometidos pela Europa não chegarão em dezembro. Nesse ponto, é bem possível que o Estado grego se veja incapaz de pagar salários e pensões, e a Grécia poderá estar à beira de um calote desorganizado.

Os dois partidos principais da Grécia compartilham parte da culpa pela confusão política atual. A promessa feita na semana passada pelo primeiro-ministro grego, George Papandreou, de promover um referendo para aprovar ou não o acordo de resgate causou confusão nos mercados e entre os parceiros europeus da Grécia – e foi revogada em pouco tempo. Agora é Antonis Samaras, o líder do principal partido oposicionista conservador, quem está querendo estragar tudo, exigindo a realização de eleições gerais antecipadas antes de concordar com o acordo de resgate.

Tanto Papandreou quanto Samaras merecem alguma solidariedade. O desejo de obter um mandato da população grega é compreensível, em vista do nível de sofrimento econômico por que o país está passando. Outra coisa a levar em conta é que um governo de coalizão baseado nos dois principais partidos centristas corre o risco de deixar que os extremos políticos tornem-se repositórios do desespero e revolta que medidas de austeridade adicionais provavelmente vão provocar.

Está claro que em algum momento os cidadãos gregos terão que dar seu parecer sobre a difícil situação em que o país se encontra. Mas agora, com um pacote crucial de resgate em jogo, não é hora de buscar a opinião dos eleitores. Até mesmo os próprios eleitores parecem concordar com isso. As pesquisas de opinião revelam apoio muito mais forte à formação de um governo de coalizão que para a realização de eleições antecipadas já. Os políticos gregos deveriam dar ouvidos ao povo e concentrar-se em governar, em lugar de fazer campanha política e disputar cargos.

TRADUÇÃO DE CLARA ALLAIN

DO “FINANCIAL TIMES”

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