Anúncio de referendo grego desperta desconfiança na Europa

O anúncio surpreendente do primeiro-ministro George Papandreou de que vai colocar o pacote de resgate da Grécia em um referendo ameaçou intensificar a crise da zona do euro, além de gerar queixas na Alemanha de que Atenas esteja tentando se esquivar do acordo.

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Os líderes da zona do euro concordaram na semana passada em conceder a Atenas um segundo pacote, de € 130 bilhões de euros, e um corte de 50% em sua dívida. O preço do pacote é um programa de cortes de gastos que desencadeou uma onda de protestos entre os gregos.

Papandreou disse que precisava de maior apoio político para as medidas fiscais e as reformas estruturais exigidas pelos credores internacionais.

Um líder da coalizão da chanceler alemã, Angela Merkel, disse na terça-feira que estava “irritado” com o anúncio de Papandreou.

“Isso soa como alguém que está tentando se esquivar do que foi acordado –uma coisa estranha a se fazer”, disse Rainer Bruederle, líder parlamentar do Partido Liberal Democrata FDP).

“Só se pode fazer uma coisa: fazer os preparativos para a eventualidade de que haja um estado de insolvência na Grécia.”

Segundo analistas, as últimas pesquisas de opinião mostram que a maioria dos gregos têm uma visão negativa sobre o acordo de resgate.

A incerteza renovada será, provavelmente, um embaraço para os líderes do G20 na França esta semana, que estão tentando convencer a China a ajudar a zona do euro.

“Se era para haver um referendo, podemos razoavelmente concluir que eles não podem aceitar as medidas de austeridade. Podemos concluir que isso vai desmoronar o baralho de cartas”, disse Howard Wheeldon, estrategista-sênior da BGC Partners em Londres.

Alguns líderes, entretanto, pediram precaução, já que a decisão sobre a consulta popular ainda é incerta. Funcionários da União Europeia afirmaram que eles ainda precisavam ser avisados oficialmente.

A Comissão Europeia afirmou que ainda não havia sido formalmente notificada. “O que está nos contendo é que os gregos não nos informaram formalmente (sobre o referendo)”, disse uma porta-voz da comissão.

“Até nós termos, por exemplo, uma carta ou algo parecido do primeiro-ministro grego, eu não esperaria que nós reagíssemos”, acrescentou.

VOTO DE CONFIANÇA

O líder grego também anunciou que submeterá a gestão de seu governo a um voto de confiança do Parlamento. Para ser aprovado, ele precisa do apoio de 151 dos 300 deputados.

O grupo de Papandreou, o socialista Pasok, tem 153 parlamentares, um apoio suficiente para evitar a convocação de eleições antecipadas. Apesar disso, o primeiro-ministro vem pedindo, até o momento sem sucesso, apoio para as medidas de austeridade do governo e o plano da União Europeia de ajuda à Grécia.

France Presse
O primeiro-ministro grego, George Papandreou, durante pronunciamento à população por rede de TV nacional
O primeiro-ministro grego, George Papandreou, durante pronunciamento à população por rede de TV nacional

BOLSAS EM QUEDA

A decisão da Grécia de organizar um referendo sobre o recente acordo em Bruxelas para solucionar a crise da dívida despertou incertezas no mercado e provocou a queda das principais bolsas da Europa no pregão desta terça-feira.

O índuce Athex, de Atenas, abriu com baixa de 6,31% e alguns minutos depois operava em queda de 5,96%.

No início da sessão, o índice Dax de Frankfurt perdia 3,37% e o CAC 40 de Paris recuava 1,89%, antes de registrar baixa de 3,11%.

Em Londres, o índice Footsie 100 cedia 1,71%. Madri perdia 2,85% e Milão 4%.

O anúncio de um referendo na Grécia provoca novos temores de divisão na União Europeia com uma eventual saída de Atenas do bloco, caso seus habitantes rejeitem a solução proposta por Bruxelas. Os bancos seriam as primeiras vítimas.

RESGATE

Na semana passada, líderes da zona do euro divulgaram um acordo alcançado durante cúpula realizada em Bruxelas para discutir a crise da dívida pública que atinge países do bloco, como a Grécia.

Como parte do acordo, os bancos privados que detêm papeis da dívida grega aceitaram assumir perdas de 50%, o que equivale a € 100 bilhões de euros. Com a amortização, a dívida grega corresponderá a 120% do PIB do país –atualmente está em torno de 145%.

Apesar do plano para reduzir pela metade o valor da dívida grega de € 200 bilhões nas mãos de credores privados, muitos gregos estão profundamente ressentidos com o que veem como uma ingerência liderada pela Alemanha de seus assuntos.

Na sexta-feira, gregos protestaram contra as medidas de austeridade do governo interrompendo um desfile militar anual em Thessaloniki, no norte da Grécia. Chamaram o presidente Karolos Papoulias e outras autoridades presentes no evento de “traidores”.

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

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