Arbitragem, clima, organização, veja lista de desculpas no Pan

Arbitragem, condições climáticas, altitude, falta de ritmo e até catimba dos rivais. Esses são alguns exemplos de desculpas utilizadas por brasileiros que não conquistaram medalhas ou que perderam o posto mais alto no pódio nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara.

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Muitos despediram-se com críticas e reclamações contra a organização, outros falaram em tom de desabafo. Abaixo, confira algumas das justificativas mais comuns durante o Pan mexicano.

ORGANIZAÇÃO

Uma das críticas mais duras saiu do tenista paulista Ricardo Mello, no quinto dia dos Jogos. Favorito, ele caiu para um rival mais fraco, o dominicano Victor Estrela (234º) e justificou a derrota por causa do “horário”.

“Só descobri [o horário do jogo] de manhã, por sorte, quando vi meu adversário saindo para jogar. Ele no horário certo e eu tomando café. Tive que mudar toda a programação, fora os erros bizarros que os juízes cometeram”, reclamou na ocasião. “Venho até aqui para representar o Brasil, depois de viajar o ano todo e dou de cara com um evento totalmente amador. Me senti em um torneio juvenil. A estrutura é boa, mas a organização e os juízes deixam a desejar”, desabafou.

Daniel Marenco – 20.out.11/Folhapress
Ricardo de Mello perde a partida e acaba eliminado do Pan de Guadalajara
Ricardo de Mello perde a partida e acaba eliminado do Pan de Guadalajara

A organização também foi alvo da pernambucana Yane Marques. Nem mesmo a prata no pentatlo moderno, no primeiro dia do Pan, fez com que o discurso fosse amenizado.

“O percurso [da corrida] estava terrível. A organização não foi muito satisfatória”, atacou. “Nadamos em uma piscina a 21 graus, gelada, o que não é permitido. Na esgrima, não dava para ver a luz de quem tocava. No tiro, o sol atrapalhou. Coisas que vão de encontro ao bom rendimento do atleta, mas aconteceu para todos, não é desculpa.”

Já o goiano Rafael Andrade foi prata no trampolim e não reclamou por ele, mas pelo carioca Carlos Ramirez, que caiu de uma altura de aproximadamente 4,5 m.

“O trampolim estava muito instável. As molas de um lado não estavam iguais às do outro. Elas jogam para cima e para qualquer lado. O trampolim do aquecimento estava muito pior. Ninguém estava acertando nada”, reclamou Andrade. Ele [Ramirez] tinha grandes chances de ganhar medalha. Ele é muito bom.”

ARBITRAGEM

Foi a desculpa mais comum entre os atletas, geralmente incrementada com proteção aos donos da casa ou aos Estados Unidos. No nado sincronizado Lara Teixeira e Nayara Figueira foram bronze, mas reclamaram pela prata, que foi para os EUA.

“No final, a gente não tinha mais o que fazer, nem força para nadar até a borda. A gente partiu para o ataque, incrementou coreografia, fez uma rotina muito rápida, saía exaurida dos treinos. A gente executou muito bem, a delas [norte-americanas] era muito mais fácil, talvez os juízes pensaram que elas foram melhores.A [estratégia] delas é o contrário, fazer mais fácil e talvez mais bem executado”, disse Lara.

“Mas nado é assim, tem que ter muita paciência, em várias competições seguidas mostrar que a gente está melhor que aquele outro país. Quebrar uma tradição de mil anos. EUA, campeão olímpico mil vezes até 1996, sempre prata no Pan-Americano… No nado é um pouco difícil quebrar uma tradição”, defendeu a técnica Andrea Curi.

Daniel Marenco – 20.out.11/Folhapress
Lara Teixeira e Nayara Figueira competem na final do nado sincronizado
Lara Teixeira e Nayara Figueira competem na final do nado sincronizado

O bronze na ginástica rítmica também não acalmou a paranaense Angélica Kvieczyski. Ela reclamou das notas dadas e comentou o que teria faltado para a prata ou o ouro.

“O que faltou? Boa pergunta. Eu não sei explicar. Ninguém tem essa explicação. Só a arbitragem tem”, alfinetou Angélica. “Depende de mim, mas não só de mim”, disse. “Estou contente pelo resultado inédito para o Brasil. Só esperava ter recebido uma nota maior na bola, que é a minha série forte, esperava menos descontos dos árbitros. Se você conquista o público, você conquista a arbitragem”, ironizou Angélica.

O paulista Márcio Wenceslau também teve a arbitragem como alvo, após ser eliminado na semifinal do taekwondo.

“Ela [a árbitra] marcou três pontos nada a ver. Sair perdendo de 6 a 0 em um campeonato tão disputado é complicado”, afirmou, se referindo a uma marcação de falta. “Se você pegar as regras e analisar, vai ver que nunca iriam sair esses seis pontos no início”, completou o lutador.

CLIMA, TEMPERATURA E ALTITUDE

Até mesmo o clima (calor), a temperatura (em geral acima dos 30 graus) e a altitude de Guadalajara (acima de 1.500 m) foram culpados. A paulista Poliana Okimoto, prata na maratona aquática, por exemplo, reclamou da temperatura do mar, 31 graus.

“Fiquei muito mole durante a prova. No final consegui impor um ritmo mais forte, dar um sprint, mas fiquei chateada porque não vi a Cecília [argentina, a campeã] abrir e perdi a chance de conquistar o ouro.”

Discurso parecido foi ouvido no vôlei de praia. Apesar de terem ganhado o ouro, Alison e Emanuel perderam na segunda rodada da primeira fase. O chefe de equipe, Amilton Barreto, “culpou” o calor.

“A dupla jogou abaixo do que pode. Eles devem ter sentido o calor absurdo e o cansaço de uma temporada exaustiva”, explicou Amilton Barreto.

O nadador carioca Bruno Fratus disse que a altitude logo no segundo dia do Pan. Nas eliminatórias dos 100 m livre, ele não conseguiu vaga na final e saiu ofegante da água.

“Achei que ia morrer, minha garganta estava fechada”, afirmou, após se recuperar.

Já a paulista Fabiana Murer, favorita ao bicampeonato no salto com vara, foi a quinta colocada já na última semana do Pan. Ela reconheceu que não foi bem, mas também “culpou” outros fatores.

“No aquecimento, as condições estavam muito diferentes. Estava com um vento muito a favor. Já na competição, como tive que esperar bastante, o vento já tinha diminuído. Demorei para me adaptar nos primeiros saltos e acabei me cansando muito para o final da prova”, explicou a atleta que errou quatro saltos e acertou três.

Daniel Marenco – 24.out.11/Folhapress
A brasileira Fabiana Murer na disputa do salto com vara, no Pan-Americano de Guadalajara
A brasileira Fabiana Murer na disputa do salto com vara, no Pan-Americano de Guadalajara

FALTA DE RITMO, LESÃO E CANSAÇO

Com o objetivo de virar o maior medalhista de ouro do Brasil, o nadador carioca Thiago Pereira também reclamou. Ele foi bronze nos 200 m peito no quarto dia dos jogos e atribuiu o rendimento ao cansaço.

“Comecei a sentir um pouco. Senti dolorido as coxas e os braços. Tem muita coisa pela frente ainda, três dias mais, quatro provas. Pelo menos terei um dia de descanso, que será muito bem aproveitado na quinta-feira”, disse. “Estou dolorido para c… É uma maratona. Brinquei até que estou ficando velho para isso.”

Já a pernambucana Joanna Maranhão, duas pratas e um bronze, se despediu do Pan por causa de uma lesão e para não prejudicar sua participação em Londres-2012.

“Não vai dar para nadar os 200 m costas, quero muito nadar uma final olímpica e o quanto antes eu me recuperar para voltar aos treinos, melhor”, afirmou. “Não senti dor durante a prova [200 m borboleta, na quarta], mas me afetou psicologicamente.”

A paranaense Natália Falavigna, favorita no taekwondo, estava sem lutar há dois anos e caiu repentinamente numa das modalidades que mais recebe investimento.

“Estou sem ritmo [de luta], sem pisar em uma quadra. Sabia que seria difícil. Fiquei mais de 24 meses sem competir. Infelizmente, não deu. Agora é voltar aos treinos.”

CATIMBA E ADVERSÁRIOS

Um pouco menos presente no discurso dos atletas, mas nas poucas vezes que foi usada surpreendeu. Ney Franco, técnico da seleção masculina de futebol, por exemplo, reclamou dos cubanos após um 0 a 0 em que o time nacional foi vaiado e ouviu olé.

“Nunca vi isso, o jogador deles tirava a chuteira e jogava em campo para o juiz parar a partida”, reclamou. “Os cubanos comemoraram como se tivessem ganhado a Copa do Mundo. E a torcida apoiou a equipe mais fraca, como no vôlei feminino, quando torceram para Cuba ontem”, disse o treinador.

A maranhense Iziane, da equipe brasileira feminina de basquete atribuiu à estatura das adversárias a queda para Porto Rico na semifinal dos Jogos. Apesar do favoritismo, as brasileiras conheceram a primeira derrota.

“A equipe delas é pequena, o que dificultou nossa defesa. Elas usaram essa vantagem. Tomamos muitas infiltrações. O ataque também perdeu bolas bobas”, afirmou a ala Iziane, que jogou só 13min33s e marcou 13 pontos.

Daniel Ochoa de Olza – 25.out.11/Associated Press
Iziane tenta uma jogada para o Brasil na partida contra a Colômbia
Iziane tenta uma jogada para o Brasil na partida contra a Colômbia

PREPARAÇÃO

Tão ácido quanto o discurso de Ricardo Mello foi a declaração da boxeadora paulistaRoseli Feitosa, bronze no Pan. Antes da luta, ela tinha reclamado da preparação.

“A seleção é uma porcaria. A parte técnica é muito fraca. No Cazaquistão [local da preparação, em setembro], eu fiquei com o técnico do feminino [Cláudio Aires] e, enquanto ele deveria estar me orientando, estava tirando fotos das lutas. O Cláudio encheu a cara e ficou dois dias sem dar treinos”, disse.

Após perder a luta, foi o técnico quem rebateu as críticas.

“Ela não quis treinar com a gente, depois vocês [jornalistas] perguntam a ela por que ela estava uma merda”, disse.

DIRIGENTES

Foi apenas uma reclamação, mas até para eles sobrou. A bronca foi do lutador paulistaDiogo Silva, medalhista de ouro no taekwondo em 2007, ele foi eliminado nas quartas.

“Além de o atleta estar preparado, a gestão esportiva também tem que estar preparada. Se você não preparar bem o calendário, os atletas cansam”, disse.

16.out.11Divulgação
Diogo Silva tenta, em vão, bater o americano Terrence Jennings
Diogo Silva tenta, em vão, bater o americano Terrence Jennings

Com a Folha.com

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