Comandante de órgão iraniano nega acusações dos EUA sobre complô

O Exército de Guardiães da Revolução iraniana, vinculado pelos Estados Unidos a um suposto complô terrorista para matar o embaixador saudita em Washington, negou nesta quinta-feira qualquer relação com o plano, informou a agência oficial iraniana, “Irna”.

Hossein Salami, vice-comandante do órgão, afirmou que as acusações americanas eram “hilárias e sem fundamento”.

“Os recorrentes fracassos e frustrações da política externa dos líderes dos Estados Unidos os levaram a tal tentativa de distrair a atenção da comunidade internacional do colapso atual do capitalismo levantando disputas ridículas e infundadas para criar desavenças entre os muçulmanos”, disse Salami, citado pela agência.

Segundo ele, as acusações divulgadas por Washington tem como principal objetivo desviar a atenção internacional dos protestos que estão ocorrendo em vários Estados americanos, inspirados pelo movimento Ocupe Wall Street, contra a ganância do sistema financeiro.

O Departamento de Justiça dos EUA acusou na terça-feira dois iranianos de conspirar com setores do governo de Teerã para matar Adel al Jubeir, o embaixador saudita em Washington. Para a tarefa, teriam contatado no México um suposto membro de um cartel de narcotraficantes, que na verdade era um agente americano disfarçado.

Paul J. Richards/France Presse – 18.jun.2004
Imagem de arquivo mostra o embaixador saudita Adel al Jubeir, suposto alvo do complô terrorista desbaratado
Imagem de arquivo mostra o embaixador saudita Adel al Jubeir, suposto alvo do complô terrorista desbaratado

O suposto complô incluía detonar uma bomba em um restaurante que o diplomata frequentava, com a eventual morte de inúmeros civis inocentes. Teerã rejeitou furiosamente as acusações, classificando-as como “amadoras”.

O Departamento de Justiça dos EUA identificou os supostos envolvidos na ação terrorista nos EUA como Manssor Arbabsiar e Gholam Shakuri, ambos de nacionalidade iraniana, embora o primeiro tenha obtido também identidade americana e residisse em Nova York.

Inúmeras autoridades iranianas negaram a participação do país neste assunto e o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Ramin Mehmanparast, classificou de falsa a acusação e assegurou que o Irã e Arábia Saudita “mantêm relações de respeito mútuo”.

IMPRENSA IRANIANA

Ecoando a posição oficial do governo, a imprensa iraniana rebateu as acusações americanas, considerando-as pouco confiáveis e com o objetivo único de prejudicar o Irã. Os jornais minimizaram a informação e publicaram a notícia nas páginas internas.

O jornal Javan, ligado à Guarda Revolucionária, acusado por Washington no caso, destaca “a ausência de provas” e ridiculariza “o fracasso do complô americano (contra o Irã) organizado com um ex-ladrão”, em referência ao caso judicial do americano-iraniano apresentado como eixo do projeto.

O jornal conservador moderado Emruz afirma que as acusações americanas “constituem apenas um novo esforço para reativar o antigo projeto de criar divisões entre os dois principais países islâmicos”, Irã e Arábia Saudita.

A imprensa reformista de oposição não fica atrás na crítica e no sarcasmo. O cenário do suposto complô desafia o “dos jogos eletrônicos mais complexos e constitui um insulto à inteligência dos iranianos”, ironiza o Shargh, um dos principais jornais reformistas.

REAÇÕES

Ontem, o presidente americano, Barack Obama, e o rei saudita, Abdullah, condenaram a “flagrante violação” internacional e reiteraram a “relação sólida” entre os dois países.

Os dois líderes deploraram a “flagrante violação” das normas internacionais e concordaram em buscar “uma resposta forte e unificada para que os responsáveis prestem contas por suas ações”.

Obama e o rei Abdullah destacaram ainda “o trabalho das agências de inteligência e das forças da ordem que permitiu frustrar esta conspiração”, e reafirmaram a existência de “uma relação sólida” entre seus países.

France Presse
A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, durante uma conferência nesta quarta-feira, em Washington
A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, durante uma conferência nesta quarta-feira, em Washington

Os comentários dos dois líderes chegam horas após a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, ter dito que o suposto complô iraniano demonstra um “perigoso aumento” do apoio do Irã ao terrorismo, o que precisa de uma resposta internacional.

Ela acrescentou que o atentado frustrado “representa um perigoso aumento do uso da violência política e do apoio ao terrorismo que ocorre há muito tempo por parte do governo iraniano”.

SUPOSTO COMPLÔ

O procurador-geral dos Estados Unidos, Eric Holder, anunciou na terça-feira que havia acusado dois cidadãos iranianos de terem armado um plano para assassinar o embaixador saudita em um complô “concebido, organizado e dirigido” pelo Irã, e advertiu ao país que haverá consequências.

Como parte da reação, nesta quarta-feira, o governo dos Estados Unidos anunciou sanções contra a companhia aérea iraniana Mahan, acusada de dar apoio financeiro, material e tecnológico para a Força Qods, unidade da Guarda Revolucionária do Irã.

Mark Wilson/France Presse/Getty Images – 4.mai.2011
Procurador-geral dos EUA, Eric Holder, forneceu detalhes sobre o complô desbaratado pelo governo americano
Procurador-geral dos EUA, Eric Holder, forneceu detalhes sobre o complô desbaratado pelo governo americano

Os EUA também iniciaram uma série de consultas a diplomatas do Conselho de Segurança das Nações Unidas, possível via para se aprovar uma rodada de sanções internacionais contra o Irã.

REAÇÃO DO IRÃ

Logo na terça-feira, Teerã rejeitou furiosamente as acusações feitas por altos funcionários dos Estados Unidos, classificando-as como “amadoras”, mas elas podem representar uma ameaça à paz e a estabilidade no Golfo, uma região importante para o abastecimento mundial de petróleo e com uma série de bases militares americanas.

O ministro iraniano das Relações Exteriores, Ali Akbar Salehi, advertiu na quarta-feira os Estados Unidos para qualquer tentativa de “confronto” com o Irã no caso do suposto complô contra o embaixador saudita em Washington.

Atta Kenare – 30.jan.2011/AFP
O ministro iraniano das Relações Exteriores, Ali Akbar Salehi
O ministro iraniano das Relações Exteriores, Ali Akbar Salehi

“Não queremos o enfrentamento, mas se [os Estados Unidos] nos impuserem, as consequências serão mais duras para eles” do que para o Irã, declarou Salehi.

O ministro criticou a “encenação dramática” feita pelas autoridades americanas e pela imprensa sobre a revelação do suposto comando iraniano, acusando-o de ter “apresentado as coisas como se tivesse havido uma explosão nuclear”.

Na terça-feira, o representante permanente do Irã na ONU, Mohammad Khazaee, afirmou que estava “chocado em ouvir uma mentira tão grande” e considerou um “insulto ao senso comum” a sucessão de eventos anunciada pelas autoridades americanas.

“O Irã sempre condenou o terrorismo, sob todas as formas e manifestações”, e é uma vítima. “Um claro exemplo disto é o recente assassinato de vários cientistas nucleares (iranianos) por parte do regime sionista, apoiado pelos Estados Unidos”, escreveu em carta enviada ao secretário-geral, Ban Ki-moon.

Um conselheiro do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, também rejeitou a acusação de envolvimento do Irã no plano. “É um cenário planejado para desviar a atenção da opinião pública americana dos problemas internos dos Estados Unidos”, afirmou o conselheiro de imprensa Ali Akbar Javanfekr.

Editoria de arte/Folhapress


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