Guerra judicial põe em xeque limites do design de produtos

Ao barrar as vendas na Alemanha do Galaxy Tab 10.1, da Samsung, em processo movido pela Apple, a juíza do Tribunal Regional de Düsseldorf, Johanna Brueckner-Hoffman, justificou sua decisão dizendo que “outros designs são possíveis”. Ela considerou os tablets das duas empresas muito parecidos.

A intensa disputa de patentes nos tribunais entre Apple e Samsung levantou um debate sobre qual a fronteira entre a semelhança e cópia para tudo aquilo que envolve um produto tecnológico –do hardware ao software.

Para visualizar o infográfico precisa atualizar o Flash Player.

Folha ouviu especialistas para saber se é possível ser diferente quando duas empresas fabricam um produto na mesma categoria.

“É possível fazer muita coisa. O problema é que você fica entre dois lados. Por um, tem que ser diferente. Por outro, tem que seguir algo que o usuário já espera”, diz Caetano Traina Júnior, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP em São Carlos.

E norteando o trabalho de fabricantes e designers estão os ciclos na indústria.

“Existem ondas que forçam naturalmente os fabricantes a concentrar seus designs nos padrões vigentes. Houve a onda do flip, do clam shell, do slide, do candy bar. Hoje, os padrões touchscreen imperam e fazem com que os aparelhos variem apenas em alguns aspectos, como teclado e tamanho”, diz Leonardo Marques, chefe de departamento da área de criação e técnica da ESPM-RJ.

Há alguns anos, por exemplo, o celular ideal era o menor possível. Hoje em dia, parece haver uma competição por quem tem a maior tela.

DETALHES TÃO PEQUENOS

Dada a simplicidade de smartphones e tablets –uma tela de vidro e poucos botões no corpo do aparelho–, a semelhança na harmonia final parece inevitável. As discussões, então, ficam por conta dos pequenos detalhes.

Discutem-se formas, cantos, ângulos, proporções, conectores, materiais, cores e até parafusos. Nesses aparelhos, a distância entre a última camada de tela e o contorno ou o próprio anel de contorno são aspectos importantes.

“Quando você junta esses elementos com qualidade, eles passam a ter um significado que não tinham separados. Ao mostrar tudo ao mesmo tempo, de uma certa maneira, e com uma certa configuração, você tem um produto atrativo aos olhos”, diz Priscila Lena Farias, professora de design da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

E as fontes de inspiração para o design são amplas. “O designer pode ir a uma feira em Milão e ver um copo, uma cadeira ou um carro e ser influenciado”, explica Rodrigo Ayres, gerente de estratégias de negócios de celular da LG.

Steve Jobs, por exemplo, tinha notório apreço pelo trabalho de Dieter Rams, designer da empresa alemã de eletrodomésticos Braun.

Mas, nos tribunais, o que vale é o olho do leigo. Nos EUA, a violação da patente de designs usa um precedente de 1871 que diz: “Se, aos olhos de um observador ordinário, dois designs são substancialmente iguais –se a semelhança é tamanha que confunde o observador e o induz a comprar um produto pensando ser outro–, o primeiro a patentear foi violado”.

Jo Yong-Hak – 10.ago.11/Reuters
Os tablets iPad (esq.), da Apple, e Galaxy Tab 10.1, da Samsung
Os tablets iPad (esq.), da Apple, e Galaxy Tab 10.1, da Samsung

TELENOVELA

Desde abril, Apple e Samsung vivem uma relação de gato e rato nos tribunais por questões ligadas a patentes de smartphones e tablets.

Elas já trocaram mais de 20 processos em dez países diferentes, incluindo EUA, Austrália, Alemanha, Holanda e Japão.

A Apple iniciou a briga em um tribunal da Califórnia, afirmando que a empresa sul-coreana copia servilmente seus produtos. Sucederam-se, então, algumas vitórias para a Apple.

As vendas do Galaxy Tab 10.1 foram proibidas na Austrália e na Alemanha. Nos EUA, a Samsung também foi derrotada, mas a Apple tem que provar que as suas patentes violadas são válidas.

A batalha também já rendeu passagens inusitadas.

Neste mês, uma advogada da Samsung não conseguiu distinguir o Galaxy Tab de um iPad a uma distância de três metros.

Em agosto, a Samsung usou trechos de “2001: Uma Odisseia no Espaço” em audiência para mostrar que o design de tablets já era conhecido. Numa cena, astronautas aparecem assistindo a um vídeo em um aparelho em formato de tabuleta.

Com a Folha.com

Sobre o editor

Willames Costa
Wíllames Costa
Editor

Instagram

Parceiros do blog