Mecânico que se casou na UTI do InCor tem alta

Há cinco meses, o mecânico Willian Marques da Silva, 37, chegou ao InCor (Instituto do Coração) com uma insuficiência cardíaca grave, ligado ao balão de oxigênio, 20 kg mais magro e com uma ameaça de morte caso não fizesse um transplante.

Hoje (30), de coração novo e 8 kg recuperados, ele teve alta e voltou para Extrema (MG), onde mora com a mulher, Gislene, e os dois filhos, Wellington, 16, e Wesley, 13.

No café da manhã, enquanto devorava dois pãezinhos (“Precisa engolir esse pedação de pão?”, repreendia o médico Fernando Bacal), Silva já sonhava com a comida mineira.

“Humm… o pé de porco. Humm, aquela costela gorda, a galinha caipira…”

Orientada pela nutricionista do InCor, Gislene já prevenia o marido sobre a nova dieta, que passa bem longe das antigas orgias gastronômicas.

Mecânico recebe alta após transplante

 Ver em tamanho maior »

Apu Gomes/Folhapress AnteriorPróxima

Apu Gomes/Folhapress
AnteriorPróxima

O mecânico Willian Marques da Silva, 37, acompanhado de sua mulher, Gislene Maria de Paula, 33, após receber alta na manhã de hoje (30), depois de realizar transplante de coração, no InCor, em São Paulo

“É vida nova, ‘fio’. Agora é frango grelhado e salada”, brincou a mulher. O médico acrescentou: “Bebida alcoólica, então, nem pensar!”

Silva jura que não se importa com as restrições alimentares e nem com as medicações que terá de tomar para o resto da vida. São dois imunossupressores e remédios para controlar a pressão arterial e o colesterol.

Por ora, diz que ficará “feliz da vida” de chegar em casa e beber a “água geladinha da geladeira nova”.

O eletrodoméstico foi um presente de casamento da equipe do InCor. Em 13 de abril último, Silva e Gislene se casaram na UTI, tendo dois médicos como padrinhos e uma fisioterapeuta como dama de honra.

De lá para cá, a expectativa à espera do transplante foi grande. “Por duas vezes achei que faria, mas os corações não eram bons. Quando chegou o meu de fato nem fiz tanta festa porque nem acreditava que era pra valer”, lembra.

O órgão veio no dia 1º de julho, de um jovem de 18 anos, que morreu vítima de um tiro. Os médicos não dão mais detalhes para que o anonimato da doação seja preservado.

“Quando me avisaram, só pensava na dor da família. Pedi muito pra Deus confortá-la. Ao mesmo tempo, foi o maior presente para a nossa. Meus filhos voltaram a sorrir”, afirma Gislene.

TRANSPLANTE

Silva sofria de miocardiopatia dilatada, uma grave inflamação do músculo cardíaco. Seu coração trabalhava só com 23% da sua capacidade. A sobrevida era graças a drogas vasoativas que mantinham a força de contração do coração e um dispositivo (balão intraórtico) que aumentava o fluxo de sangue que chegava às artérias.

O transplante durou seis horas, e Silva levou outras seis para acordar. “Quando abri os olhos, já não sentia mais falta de ar”, lembra.

Hoje, 35 pessoas estão na fila do InCor à espera de um coração. Cinco delas têm prioridade porque estão em estado crítico, segundo Fernando Bacal, coordenador do núcleo de transplante.

Nos sete primeiros meses do ano, o instituto realizou 16 transplantes cardíacos, o dobro do número feito no mesmo período do ano passado.

Na saída do InCor hoje, Silva recebia as últimas orientações do médico. “Faça caminhadas. A reabilitação física terá que ser aos poucos Evite aglomeração, e pessoas gripadas por perto.”

Gislene já previa confusão pela frente. “Os parentes e os amigos estão loucos para visitá-lo. Ele é muito conhecido na cidade e agora, de coração novo, todo mundo vai quer vê-lo. Mas vai ter que ser aos poucos, pra não encher a casa de gente.”

Carregando os pertences em dois sacos de lixo pretos e uma bolsa de mão, o mecânico Silva diz esperar voltar ao InCor só para as “revisões” periódicas necessárias. “Agora, é só felicidade. Aproveitar cada minuto da nova vida.”

Fonte: Da Folha de São Paulo

Sobre o editor

Willames Costa
Wíllames Costa
Editor

Instagram

Parceiros do blog