Obra de Ana das Carrancas em exposição no Sesc Petrolina

Foto: Lizandra Martins/Divulgação

Foto: Lizandra Martins/Divulgação

PETROLINA- Considerada uma das artesãs e ceramistas mais populares e importantes do interior do Nordeste, a sertaneja Ana Leopoldina dos Santos, que ganhou o mundo das artes como Ana das Carrancas, morreu em 2008 deixando um grande legado às suas filhas Maria da Cruz e Ângela Lima, além de seu marido José Vicente, deficiente visual que chegou a ser homenageado pela esposa na maioria das peças que ganharam traços afetivos: olhos vazados. Mesmo com diversas homenagens que recebeu em vida e presença em feiras de artesanato pelo país, jamais teve uma exposição à altura de seu talento.  Até o dia 4 de outubro deste ano, quem for ao Sesc de Petrolina, não pode deixar  de entrar na galeria batizada com o nome da artista,  a exposição  Os olhos Cegos do Rio.

São memórias, afetividades e todo um imaginário popular que permeia a obra da ceramista, ícone da cultura nordestina, a partir de um recorte contemporâneo da sua produção. A mostra é um dos atrativos do Festival de Artes do Vale do São Francisco (Aldeia do Velho Chico) que segue até o dia 18 com shows musicais, peças de teatro, oficinas de artes, ações literárias, entre outros atrativos.   A exposição, aberta na última sexta-feira, busca ressignificar a trajetória da artista que tem peças de sua autoria em vários parte do Brasil, Estados Unidos e França.

Com o suporte de textos e fotografias, ao todo são 19 peças tridimensionais modeladas pela artesã entre as décadas de 60 e 90, fases em que a ceramista aguçava sua criatividade, fazendo experimentações que iam além da tradição das carrancas que nasceram às margens do rio batizado pelo nome de seu santo de devoção. Carrancas de diversos tamanhos, imagens do Cristo coroado, gangula (barco com carranca na proa) e fisionomias humanas, dão o mote à exposição.

Para as filhas da artesã Maria da Cruz e Ângela Lima que dão continuidade ao legado artístico da matriarca participando de diversos eventos pelo país a exemplo da Fenneart, essa exposição é uma espécie de retrovisor que faz uma ponte com as novas gerações. “Para família é uma lembrança afetiva  que permanece na rotina do centro de arte. Há visitantes que veem o conjunto como novidade, mas não deixa de ser um mergulho num trabalho feito por mais de meio século”, observa Maria da Cruz. Ângela Lima que acabara de assinar um painel com carrancas em diversos tamanhos na entrada da UPA recém-inaugurada na cidade, observa que a o trabalho da mãe permanece vivo na memória de quem a conheceu de perto e atrai o interesse de jovens pesquisadores que atuam nas artes plásticas.

As peças expostas fazem parte do acervo da família que fica no Centro de Artes Ana das Carrancas, localizado na Cohab Massangano, e de colecionadores  que cederam seus exemplares para o evento. “A intenção é de perceber principalmente a poética que emerge do barro, matéria indispensável ao seu trabalho. As peças em exposição trazem um recorte, parte do universo criativo da artista que não se apresentava estática para dar conta de um circuito mercadológico, mas aberta a experimentações e inserções de novos elementos”, avalia o curador da exposição André Vitor Brandão.

A Dama do Barro, como ficou conhecida, nasceu Ana Leopoldina Santos em 1923 na localidade de Santa Filomena, então distrito de Ouricuri, Sertão do Araripe. Ainda jovem mudou-se para o Piauí. De lá a seca provocou mais um êxodo rumo a Petrolina, onde a família embasada na fé, ancorou-se nas imediações do rio São Francisco. Em 2008, a artesão faleceu por conta de diversos problemas de saúde. Ao definir sua arte ela costumava dizer: “O barro é como gente. Tem o ruim e o bom. Conhecendo o barro se conhece o mundo”.

Fonte: Do JC Online

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