ONU já trabalha no envio de observadores para a Síria

Kofi Annan, o enviado especial da ONU/Liga Árabe para a Síria, antecipou na semana passada ao chanceler brasileiro Antonio Patriota que acertara com o ditador Bashar al Assad o envio de observadores militares das Nações Unidas a Damasco. A medida visa começar a definir onde ficariam estacionadas as tropas internacionais a serem eventualmente enviadas ao país árabe.

As tropas vigiariam o cumprimento do ponto número dois dos seis constantes do plano Annan, qual seja “cessação de todo tipo de violência de todas as partes, vigiada pelas Nações Unidas”.

Com o anúncio de que Assad aceitou o plano, Annan pode, portanto, executar o anunciado a Patriota e dar início ao que o presidente russo Dmitri Medvedev definiu como a “última chance” para uma saída pacífica na Síria.

Patriota não chega a ser tão dramático, mas também considera que não está no horizonte a hipótese de afastamento do ditador. “Ele controla as forças armadas, a oposição não está unificada e, em setores dela, há a contaminação pela Al Qaeda”, o que torna o apoio do Ocidente mais complicado, analisa Patriota.

Tampouco há a hipótese de intervenção militar externa, aliás fortemente desaconselhada por Annan no telefonema ao brasileiro. “Seria um erro dramático, que apenas tornaria a situação ainda pior”, disse o enviado da ONU ao chanceler.

Afastadas, portanto, a saída de Assad por sua própria iniciativa e a intervenção militar externa, o que resta é a aposta na missão Annan.

O chanceler aliás disse esperar um “forte respaldo” dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) à iniciativa da ONU, no documento final da quarta cúpula do grupo, que começa amanhã. É certo que haverá algo do gênero, até porque é o ponto que unifica as posições dos cinco.

DIVISÃO SOBRE A SÍRIA

Mas os BRICS se dividem quando se trata de analisar a violência na Síria.

O esboço original do documento que os chefes de governo devem assinar na quinta-feira fala em acabar com “toda a violência”, o que equipara a selvagem repressão praticada pela ditadura do presidente Bashar Assad aos atos violentos cometidos, em resposta, pelos opositores.

O Brasil não concorda com essa formulação. Gostaria que ficasse claro que a maior responsabilidade é do governo. Mas Rússia e, principalmente, China preferem “equalizar a responsabilidade pela violência”, no dizer de um dos negociadores do texto final.

De certa forma, a divergência em torno do caso da Síria –o mais agudo na agenda global– reproduz a divisão institucional que há entre os BRICS. Três países democráticos (Índia e África do Sul, além do Brasil) divergem da fórmula apoiada por uma ditadura (a China) e por um regime autoritário, embora formalmente democrático (a Rússia).

Já houve tal divisão no Conselho de Segurança das Nações Unidas, quando se votou proposta da Liga Árabe de condenação do regime sírio. China e Rússia vetaram o texto que África do Sul e Índia apoiaram. O Brasil já não era membro do Conselho de Segurança naquele momento, mas apoiou de fora a posição de indianos e sul-africanos.

A posição das três democracias do grupo inova em relação a uma nota oficial emitida após visita de seus representantes à Síria, em agosto do ano passado. Naquela altura, o IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) “equalizou” a responsabilidade pela violência. Mas, depois, o porta-voz do Itamaraty, Tovar Nunes, admitiu que a nota fora “um erro”.

AJUDA HUMANITÁRIA

De todo modo, os cinco BRICS estão de acordo em respaldar a missão do ex-secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, que está tratando de conseguir ao menos uma trégua para permitir a entrada de ajuda humanitária. Também estão de acordo em rejeitar qualquer intervenção estrangeira, o que acaba sendo inócuo porque a hipótese não está em debate, por enquanto.

O máximo que se discute, assim mesmo apenas entre Estados Unidos e Turquia, é o possível envio aos grupos de oposição de ajuda não-letal, o que inclui equipamentos de comunicação e suprimentos médicos.

Mesmo essa possibilidade é rejeitada pela Rússia.

A divisão entre os BRICS tem sua lógica, aponta, em artigo recente, Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas: “Enquanto Brasil, Índia e África do Sul estão se empenhando em uma significativa redistribuição de poder institucional, China e Rússia são poderes do status-quo, relutantes em mudar um sistema que lhes tem servido bem nas últimas décadas”.

Fonte: Da Folha.com

Sobre o editor

Willames Costa
Wíllames Costa
Editor

Instagram

Parceiros do blog