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Após voto recorde da extrema-direita, rivais mudam estratégia na França

A votação recorde conseguida pela candidata da extrema-direita Marine Le Pen no primeiro turno das eleições presidenciais francesas obrigou o atual presidente, Nicolas Sarkozy, e seu rival socialista, François Hollande, a reverem suas estratégias para atrair os votos da Frente Nacional (FN) no segundo turno.

Apesar de ter sido eliminada da corrida presidencial, Marine Le Pen ficou em terceiro lugar, conseguindo 6,4 milhões de votos, cerca de 18% do eleitorado francês.

Atrair os votos da extrema-direita passou a ser praticamente a única alternativa para Sarkozy de continuar na presidência. A estratégia do atual presidente e candidato conservador é a de reforçar ideias que já faziam parte de seu programa, como controle da imigração, segurança pública e protecionismo. Temas importantes para o eleitorado de extrema-direita.

Segundo Sylvain Crépon, professor da universidade de Nanterre e especialista na extrema-direita francesa, não houve grandes mudanças no discurso do presidente francês. “Durante a campanha de 2007 e em seu mandato, Sarkozy promoveu ideias e medidas para atrair o eleitorado da Frente Nacional”, afirma.

A candidata derrotada da Frente Nacional à eleição presidencial francesa, Marine Le Pen, beija seu pai, Jean Marie, fundador do partido, em cerimônia nesta terça-feira pelo Dia dos Trabalhadores em Paris (Foto: AP)A candidata derrotada da Frente Nacional à eleição presidencial francesa, Marine Le Pen, beija seu pai, Jean Marie, fundador do partido, em cerimônia nesta terça-feira pelo Dia dos Trabalhadores em Paris (Foto: AP)

O especialista cita como exemplos o debate sobre a “identidade nacional”, em 2009, que tinha como objetivo redefinir as regras da nacionalidade, e o plano para extraditar comunidades ciganas da França, em 2010.

“Sarkozy enviou mensagens desse tipo para seduzir os eleitores do FN. Nesta eleição ele apenas acentuou esta dimensão que já existia. Enviando sinais cada vez mais claros e evidentes,” afirma Crépon.

Do lado socialista, François Hollande afirma que é necessário debater com os eleitores de Marine Le Pen, mas critica Sarkozy por buscar os votos da extrema-direita. Hollande vê os votos da Frente Nacional como um protesto e para atrair estes eleitores aposta em propostas econômicas e sociais.

Mas a esquerda sabe que não é útil tentar atrair os votos da extrema-direita. “Estes eleitores dificilmente votarão por Hollande. Sem dúvida alguma o eleitorado do FN está mais próximo das ideias da direita de Sarkozy que da esquerda”, afirma.

Estratégias
Apesar da proximidade ideológica e dos esforços de Sarkozy, quase metade dos eleitores de Marine Le Pen não estão decididos a votar pelo atual presidente. Segundo pesquisas de opinião, 43% dos eleitores de Marine Le Pen votariam em Sarkozy, 39% estariam indecisos e 18% votariam em Hollande.

Segundo Crépon, Sarkozy não consegue atrair o eleitorado do FN por causa da imagem de “presidente dos ricos”, que o perseguiu durante toda a campanha. Marine Le Pen, inclusive, foi uma das que mais utilizou este ponto fraco do presidente durante sua campanha, se apresentando como a candidata dos “excluídos” contra os “aristocratas do sistema”.

“Os eleitores do FN são pessoas desempregadas ou excluídas. Durante sua presidência Sarkozy perdeu a simpatia das camadas populares”, afirma o especialista.

Quanto aos eleitores que optam pelo candidato socialista no segundo turno, para o especialista este é um voto de protesto. “Em minhas pesquisas entrevistei pessoas que sentem raiva de Sarkozy e querem que ele perca”, afirma Crépon.

Além disso, a derrota e o enfraquecimento da direita tradicional, representada pelo UMP (União pelo Movimento Popular) de Sarkozy, poderia fortalecer a direita nacionalista, representada pela Frente Nacional. “Marine Le Pen tem interesse na derrota de Sarkozy para se transformar em uma força de direita com a qual será necessário contar e negociar”, afirma o especialista.

Este já é o caso em alguns países europeus como Hungria, Holanda, Suíça e Noruega, onde partidos considerados “neopopulistas” se apresentam como forças políticas importantes.

Talvez como parte desta estratégia, Marine Le Pen anunciou nesta terça-feira (1) durante um comício em Paris que votaria em branco no segundo turno das eleições.

Na sexta-feira (27) ela publicou uma carta aberta aos dois candidatos desaprovando a “caça” aos votos de seus eleitores, que considerou “ilegítima”. “O voto a meu favor não é um voto de sofrimento ou de desesperança, é um voto de apoio”, afirmou a presidente da Frente Nacional.

Jean Marie Le Pen reage aos resultados do primeiro turno, em 22 de abril, em Paris (Foto: AP)
Jean Marie Le Pen reage aos resultados do
primeiro turno, em 22 de abril, em Paris (Foto: AP)

A extrema-direita francesa
Marine Le Pen assumiu a presidência da Frente Nacional em 2011. Com um discurso mais moderado, ela conseguiu dar credibilidade e mudar a imagem extremista deixada pelo pai, Jean Marie Le Pen, ex-presidente do partido.

Criado 1972 por um grupo neofascista chamado Ordem Nova e presidida por Jean Marie Le Pen, a Frente Nacional era, em seu início, considerado como um pequeno grupo radical. Em 1982 participou de sua primeira eleição e em 2002 conseguiu passar para o segundo turno das eleições presidenciais francesas.

Mas segundo Sylvain Crépon, “houve uma evolução no discurso, mas as proposições do partido não mudaram”. Questões de cunho nacionalista como a reforma do código da nacionalidade, o fechamento das fronteiras e a saída da União Europeia continuam no centro do programa da Frente Nacional.

Segundo o analista, ao contrário do que se imagina, o eleitorado também não mudou em relação aos anos anteriores. “O eleitor da Frente Nacional é tradicional e popular, sempre foi assim”. Fazem parte deste eleitorado desempregados, operários e pessoas que moram em zonas rurais, longe das cidades grandes. “As primeiras vítimas da crise econômica e social”, afirma.

Fonte: Do  G1, em Paris

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