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Economia é desafio do próximo governo argentino, diz analista político

Argentinos estão conscientes de que governo terá que desvalorizar o peso Foto: divulgação
Argentinos estão conscientes de que governo terá que desvalorizar o peso
Foto: divulgação

Faltando dois dias para as eleições presidenciais de domingo (25), a Argentina está tranquila – algo pouco comum, em um país acostumado com altos e baixos, que em 2001 viveu a pior crise de sua recente história, que há anos convive com uma inflação anual de dois dígitos e que há mais de uma década não tem acesso a créditos do mercado financeiro internacional. “Muitos empresários me perguntam por que estamos tão calmos, como se nada estivesse acontecendo, quando sabemos que no próximo governo a situação terá que mudar”, disse à Agência Brasil o economista Marcelo Elisondo. “E, francamente, não tenho resposta”.

Para o analista político Roberto Bacman, “o principal desafio do próximo governo, seja ele qual for, é econômico”.  Segundo ele, a Argentina terá que terminar de resolver o problema com os credores da dívida externa, para ter acesso a créditos e aumentar as reservas internacionais. “E, ao mesmo tempo, vai ter que combater a inflação, que gira em torno de 20% ao ano, evitando uma disparada do dólar.

Tanto governistas quanto oposicionistas estão conscientes de que a Argentina terá que desvalorizar o peso, cujo valor tem sido mantido artificialmente alto pelo governo que, além de injetar dólares norte-americanos no mercado local, praticamente proibiu o cidadão comum de comprá-los legalmente. O dólar oficial vale 9,5 pesos – mas quem quiser comprá-lo a este preço tem que pedir autorização à Afip (a Receita Federal argentina), provando que ganha o suficiente e que está em dia com os impostos. Mesmo assim, o governo pode impedir a operação ou estabelecer limites.

Há décadas, os argentinos estão acostumados a poupar em dólares, para se proteger da inflação ou desvalorização. “Não ganho muito, mas o pouco que consigo poupar troco por dólares, que guardo num esconderijo em casa”, diz o porteiro Ricardo Perez. “Perdi tudo na crise de 2001, quando o governo congelou nossas contas. Na época, o peso valia US$ 1. Mas quando pudemos tirar o dinheiro do banco, nossa moeda valia quatro vezes menos”.

Desde outubro de 2011, o governo vem aumentando os controles cambiais, para impedir uma fuga de divisas do país. Os argentinos foram proibidos de usar cartão de débito no exterior, quando o governo percebeu que muitos viajavam ao vizinho Uruguai para sacar dólares do caixa eletrônico. Limitou os saques com cartão de crédito e impôs uma taxa de 35% sobre gastos no exterior. Finalmente, quando o governo percebeu que os argentinos estavam comprando passagens aéreas, em 12 cotas, ao dólar oficial, colocou um imposto de 35% sobre os preços.

Com o cerco, o governo conseguiu frear a saída de dólares – mas, ao mesmo tempo, incentivou a criação do chamado “mercado blue” que, apesar de ilegal, é usado por todos. Basta caminhar pela Calle Florida – uma das mais frequentadas por turistas no centro de Buenos Aires – para ouvir os cambistas gritarem: “câmbio, câmbio”. Alguns, aliás, são brasileiros – que exploram o nicho dos turistas procedentes do Brasil. Apesar de o dólar blue ter atingido 16 pesos, os argentinos não desistiram de comprá-los. “Por experiência, sabemos que o dólar na Argentina sempre sobe – mesmo quando cai no resto do mundo”, diz o comerciante Pedro Alvarez.

Os três candidatos a presidente que lideram as pesquisas de opinião dizem que vão mexer no cerco ao dólar, considerado impopular por ricos e pobres. O problema é quando e como. O governista Daniel Scioli – que lidera as pesquisas – fala em ajustes graduais e controlados.  O favorito da oposição, o conservador Mauricio Macri, promete liberar o dólar assim que assumir. O terceiro colocado nas pesquisas, Sergio Massa, tem posição parecida com a de Scioli: promete mudanças em 100 dias.

Outro desafio será negociar um acordo com os chamados “fundos abutres”  – aqueles que adquiriram títulos da dívida argentina a preços baixos, depois da moratória de 2001, e entraram na Justiça para cobrar o devido sem desconto. Eles representam uma minoria que não aderiu às propostas de reestruturação. A maioria (93%) dos credores aceitou receber cerca de 30% da dívida em um prazo de até 30 anos.

A Argentina também pagou o que devia ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e negociou um acordo com o Clube de Paris, mas perdeu o processo na Justiça norte-americana, iniciado pelos fundos especulativos, donos de 1% dos títulos da dívida externa. O governo de Cristina Kirchner não cumpriu a sentença, alegando que a legislação argentina proíbe oferecer a uma minoria de credores condições melhores que as negociadas com a maioria, nos acordos de reestruturação.

O juiz de Nova York, Thomas Griesa – que julgou o caso –  impediu os bancos norte-americanos de pagarem aos demais credores argentinos (que aceitaram a reestruturação) até que o governo desembolse o que deve aos fundos abutres.

O impasse terá que ser resolvido pelo próximo governo, se a Argentina quiser voltar a ter acesso ao mercado financeiro internacional”, disse Elisondo. “E precisamos de dinheiro para aumentar as reservas internacionais, se quisermos acabar com os controles cambiais, sem que o dólar dispare a inflação também”.

Atualmente, a Argentina tem US$ 27 bilhões em reservas internacionais, mas segundo Elisondo apenas uma parte dessa soma está disponível. “Desse total, US$ 11 bilhões são empréstimos chineses, que teremos que devolver e US$ 7 bilhões são depósitos dos argentinos”, disse. Por outro lado, enquanto limitar as operações de câmbio (que também se aplicam a empresas) a Argentina terá poucas chances de atrair investimentos, no momento em que os preços das commodities exportadas pelo país caíram no mercado internacional e que importantes sócios comerciais, como a China e o Brasil, também enfrentam dificuldades.

Da ABr

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