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Em sete dias, Demóstenes passa de ‘intocável’ a suspeito de corrupção

“Realmente, os políticos estão perdendo a vergonha na cara.” O protesto é de Demóstenes Torres (DEM-GO). O ano: 2007. O alvo, o colega Renan Calheiros (PMDB-AL).

No papel de vestal do Senado, Demóstenes foi uma das mais veementes vozes da oposição e colecionou desafetos em 9 anos e meio de mandato. Um deles é o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP).

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“Por que nós vamos, nós do Senado, ficar nessa posição efetivamente quase que de pedintes? Estamos solicitando ao presidente que se afaste”, discursou Demóstenes, propondo abertura de processo contra Sarney.

Demóstenes não poupou nem mesmo os aliados. Em 2009, bateu boca com o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, então companheiro de partido, por discordar da fixação de prazo de uma semana antes de sua expulsão do DEM.

À saída da reunião, constrangeu correligionários ao manifestar-se publicamente contra a decisão do comando do partido: “Defendo sempre a expulsão sumária”.

Em nome de uma oposição mais aguerrida, trabalhou para destituir o presidente da sigla, Agripino Maia (RN), da liderança do DEM no Senado. Ocupou sua vaga.

A revelação do relacionamento com o empresário Carlos Cachoeira, acusado de envolvimento com o jogo ilegal, estilhaçou essa imagem.

‘DOUTOR’ E ‘PROFESSOR’

De “intocável” a suspeito de corrupção, bastaram sete dias. Foi chamado de “doutor” por Cachoeira em conversar gravadas pela Polícia Federal. E se refere ao empresário como “professor”.

Em 29 de fevereiro, foi deflagrada a Operação Monte Carlo, trazendo à tona o teor de suas conversas com Cachoeira. Alvo de investigação, desabafou: “O sofrimento provocado pelos seguidos ataques a minha honra é difícil de suportar”, escreveu em seu Twitter, em 23 de março.

Hoje é Demóstenes quem pede tempo ao DEM antes de ser expulso. Seu destino político dependerá da boa vontade das pessoas que combateu: Renan, Sarney e Agripino.

Demóstenes chegou ao Senado em 2003, graças ao discurso de “tolerância zero” adotado à frente da Secretaria de Segurança de Goiás.

Prometia, durante a campanha eleitoral, acelerar o rito do Judiciário. Contava, segundo políticos do Estado, que o tempo dedicado ao processo para apreensão de um caminhão de maconha é suficiente para que toda a droga seja consumida.

Procurador de Justiça licenciado, professor e advogado, ganhou notoriedade às custas do estilo linha-dura nas Comissões Parlamentares e Inquérito e no plenário.

Cresceu especialmente em 2009, ano marcado por turbulências no Senado. No mesmo ano, trocava os telefonemas com Cachoeira que podem levar à sua derrocada.

Todo ano, o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, órgão dos sindicatos que acompanha o trabalho dos parlamentares federais, tem escolhido Demóstenes como um dos “Cabeças do Congresso”.

Colecionador compulsivo, guarda vinis, miniaturas e CDs. Charges ampliadas de um heroico Demóstenes ocupam parte da parede de seu gabinete.

Fonte: Da Folha.com

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