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Exilado, artista norte-coreano ironiza ditador morto

Acima do vestido esvoaçante de Marilyn Monroe aparece o rosto de Kim Jong-il, o ditador norte-coreano morto neste mês. Uma pomba sobrevoa a cena, deixando uma pena caída no chão.

O artista norte-coreano Song Byeok, 42, antigamente retratava o “Estimado Líder” em peças de propaganda do regime comunista. Mas ele tentou fugir do país por causa da fome, foi apanhado e acabou em um campo de trabalhos forçados.

Depois disso, conseguiu desertar e hoje vive em Seul, capital da Coreia do Sul, onde se dedica a zombar do dirigente. “No dia em que terminei isto, ele morreu”, contou Song, mostrando a pintura de Kim, que morreu no dia 17, aos 69 anos.

“Ele não é uma criatura eterna, é como a pena de uma pomba”, disse Song, que usou a pluma como símbolo de algo irrelevante. “Eu achava que seria melhor se ele tivesse feito os coreanos ficarem melhor e esquecerem a fome antes de ele morrer.”

Kim foi um grande incentivador das artes na reclusa sociedade norte-coreana. Ele tinha uma grande coleção de DVDs sul-coreanos, e encomendava obras de arte. O ditador chegou a sequestrar um cineasta da Coreia do Sul para obrigá-lo a fazer filmes ao seu gosto.

Kim Kyung-Hoon/Reuters
Kim Jong-il aparece vestido de Marilyn Monroe em quadro de artista exilado, que pinta ao fundo
Kim Jong-il aparece vestido de Marilyn Monroe em quadro de artista exilado, que pinta ao fundo

Song nunca esteve pessoalmente com Kim, segundo membro de uma dinastia que assumiu o poder no surgimento da Coreia do Norte, em 1948. Toda manhã, ele recebia um esboço da propaganda que o Estado desejava que ele ilustrasse. “Como poderia eu, um simples plebeu, conhecer Kim Jong-il? Ele é o sol”, ironizou o pintor e escultor.

MUDANÇA DE OPINIÃO

Song, como a maioria dos outros norte-coreanos, praticamente idolatrava Kim e, antes dele, o seu pai, Kim Il-sung. Mas a fome, resultado da má gestão econômica e de desastres naturais, mudou isso. Após inundações no final da década de 1990, as condições se deterioraram a um ponto desesperador.

Em agosto de 2000, Song e seu pai, famintos, tentaram atravessar a nado o rio Tumen, na fronteira com a China. Mas o pai foi arrastado pela correnteza, e Song foi apanhado e enviado a um dos campos onde, segundo a Anistia Internacional, 200 mil cidadãos são submetidos a trabalhos forçados, com pouco acesso a alimentos e sob ameaça de execução.

Song se lembra de usar, no rígido inverno norte-coreano, a mesma roupa que vestia quando foi preso, no verão. Um dedo da sua mão direita infeccionou, e ele diz ter estado prestes a morrer –ficou tão mal que se tornou inútil para os trabalhos forçados, e acabou sendo solto.

Em 2002, deixando a mãe e a irmã para trás, ele chegou a Seul. Cinco anos mais tarde, depois da morte da mãe, ele conseguiu trazer a irmã e a família dela, com a ajuda de um intermediário chinês. “Se tivéssemos o suficiente para comer, eu não teria vindo”, disse.

Apesar da perda do dedo, Song voltou aos pincéis. Alguns dos seus trabalhos agora mostram meninas norte-coreanas de olhar vazio, e sorridentes crianças sem-teto (“andorinhas esvoaçantes”, como são conhecidas na Coreia do Norte) em torno de Kim.

Quanto a Kim Jong-un, filho de Kim que agora assume o poder antes de completar 30 anos, Song disse que por enquanto não pretende retratá-lo. “Ele é jovem demais, não quero dizer ainda [o que acho dele]”, afirmou.

DA REUTERS, EM SEUL

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