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“Tenho o direito de ser julgado nas ruas, e não apenas no PT”, diz João da Costa

Prefeito do Recife fala sobre a disputa interna no PT e demonstra que não abre mão de disputar a reeleição

 / Foto: Rodrigo Lôbo/JC Imagem

Foto: Rodrigo Lôbo/JC Imagem

João da Costa parte para o ano eleitoral na mesma situação que se encontrava há quatro anos: enfrentando contestação dentro do próprio partido e a desconfiança de aliados sobre sua viabilidade eleitoral. Mas em 2012, ao contrário de 2008, ele não conta com apoio de caciques petistas, tendo que se viabilizar como candidato pelas próprias pernas. Nesta entrevista ao JC, o prefeito alerta o PT para que tenha “coerência” e “maturidade” no debate sobre a escolha do candidato à sucessão e dá sinais que vai em busca do seu “direito” de tentar a reeleição. A a seguir, trechos da entrevista:

JORNAL DO COMMERCIO – A gente percebe alguns movimentos no PT de resistência a uma candidatura sua à reeleição. Caso elas persistam, o senhor cogita ir a prévias?
JOÃO DA COSTA – Tenho sempre defendido que prévias não são o melhor caminho. É um direito do filiado, que hoje tem uma regulamentação do congresso (do PT) para que não seja um filiado individual tumultuando um processo político. Tem que ter 25% de apoio do último PED (Processo de Eleições Diretas do partido) do diretório municipal. No PT não tem resistência, tem disputa política como tem em qualquer lugar.

JC – Essa disputa não ficou mais explícita que em anos anteriores?
COSTA – Não. Em outras ocasiões chegou até a ter prévias. Essa é a cultura do PT. Às vezes, isso traz um desgaste, mas não influencia no reconhecimento da população no trabalho do PT. (…) Não posso partir de uma estratégia de construção de unidade dizendo que vou disputar prévias. Tenho que fazer todo um esforço agora para dialogar na construção de uma unidade política, que não é só responsabilidade do condutor: depende da estratégia de cada partido, depende do desejo de lideranças legítimas, que, às vezes, disputam o mesmo espaço, e isso tudo num processo político você tem que levar em conta. Então eu tenho meu desejo pelo direito de ser candidato à reeleição, de ter meu trabalho julgado, e não ser antecipadamente julgado só politicamente dentro do meu partido, mas também pela população. É um desejo e um direito. Outros têm o desejo de querer voltar, outros de querer disputar: isso faz parte do processo político. Nas conversas, nós vamos ter que levar isso em conta.

JC – O senhor sente em declarações de integrantes da CNB e até do ex-prefeito João Paulo indicativos de que querem lhe tirar a condição de candidato natural à reeleição?
COSTA – Não espero que isso tenha presidido essas decisões. Não acredito que esses movimentos têm como objetivo encurtar mandato. Tive muitos problemas nos dois primeiros anos, de ordem política e pessoal, e isso trouxe consequências. Quando eu tive um mínimo de governabilidade e de saúde a gente teve resultados para mostrar. Não acho que seja bom para ninguém antecipar processos, encurtar mandatos para forçar decisões antecipadas. As pessoas têm que lembrar que o processo de definição de filiações é que causou trauma. A mudança de Fernando Bezerra Coelho (de Petrolina) para o Recife, de outros para tal lugar, o lançamento de candidaturas nada teve a ver com minha ação. A partir disso colocar tudo como sendo o Recife é porque a cidade tem um peso importante.

JC – Houve então imprudência do PT nessas movimentações todas?
COSTA – Um processo de movimentações desses se fosse precedido de conversas políticas, de articulação, talvez tivesse gerado menos trauma. Eu não participei desse processo, pode ser até que tenha tido.

JC – Esse limite de fevereiro colocado pela corrente petista Construindo um Novo Brasil (CNB), o senhor trabalha com esse marco?
COSTA – Olha, eu já vi que esse prazo era agosto. Então, na política, a gente pode ter um prazo como referência.

JC – E qual é o prazo que o senhor se dá?
COSTA – O prazo do tempo para construir um entendimento político. Às vezes o prazo pode ser rápido: o PT já produziu entendimento em Porto Alegre, São Paulo, Salvador; mas não produziu em Belo Horizonte, Fortaleza, Recife. Os tempos podem ser diferentes, dependem das conjunturas políticas e das necessidades de se construir a unidade, quanto mais rápido melhor. Isso não quer dizer que tem que ser tal dia.

JC – O senador Humberto Costa declarou que, caso não seja construída a unidade em torno do seu nome, esperava do senhor uma atitude altruística de abrir mão da reeleição. O senhor trabalha com essa possibilidade?
COSTA – Não podemos colocar as coisas como se o único responsável pela construção da unidade fosse o prefeito. Temos 16 partidos, temos interesses. O processo da unidade vai depender de como a gente vai se conduzir, mas também da vontade política dos atores. Se tem um ator que quer a vaga do prefeito João da Costa, que diz: ‘Não concordo com a unidade com esse (referindo-se a ele mesmo), mas se for eu tem unidade’. Aí o prefeito pode dizer: ‘Se for fulano eu também não concordo’, e aí não tem unidade. Mas não podemos fazer esse jogo, por que não vai ter unidade nunca. Então o que vale para João da Costa tem que valer para o resto. O único político de Pernambuco a ser altruísta tem que ser João da Costa? Quando o senador Humberto Costa, que tem sido um grande parceiro, tenho que reconhecer isso, sempre tem procurado discutir as coisas sob a ótica do partido, disse isso, quis dizer que a gente tem que levar em conta interesses maiores. Na medida em que a gente vai recuperando o governo, com um conjunto de obras, de intervenções a gente está fazendo isso pensando nos interesses maiores. Isso é que vai prevalecer no final. Não pode ser uma pesquisa hoje, um indicador agora: o que define isso é a política. Peço coerência, maturidade, humildade para a gente poder ter ambiente para poder construir uma frente, que se ela estiver unida é bom para todo mundo.

JC – O PTB saiu do governo há um ano. De lá para cá, o senhor procurou o partido para voltar ao governo, estabeleceu um canal de conversas para uma reaproximação ou o PTB nunca demonstrou interesse nessas conversas?
COSTA – Não teve nem uma coisa nem outra. Quando reassumi na volta da minha cirurgia (janeiro), o PTB saiu no dia em que tomei posse. Não teve tempo enquanto prefeito, nem como paciente em restabelecimento, para essa conversa. Mas disse que não deixaria de apoiar o governo na Câmara, de contribuir. Acho que houve um gesto do PTB em me convidar à sua confraternização (de fim de ano). As condições estão amadurecidas para a gente retomar um diálogo político.

JC – O PTB se mostra refratário em apoiar a sua reeleição. Caso não consiga o apoio do PTB, o senhor levaria sua candidatura adiante, mesmo com defecções na Frente Popular?

COSTA – Não posso partir do princípio que o resultado está dado, se não eu nem começo. Tenho que partir do que é fundamental a gente construir. A entrevista de Fernando Bezerra Coelho (Ministro da Integração Nacional, publicada pelo JC(no último dia 27) é muito coerente, dizendo: ‘Olha, teve movimentos, tem posição do PSB, mas é importante construir a unidade política, é preciso ter humildade para construí-la’. Isso mostra que a gente está acumulando de forma a criar um ambiente para que isso possa ser construído.

Com Do JC online

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